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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ecos do Front



E as pessoas não nos compreenderão, pois, antes da nossa, cresceu uma geração que, sem dúvida, passou estes anos aqui junto a nós, mas que já tinha um lar e uma profissão, e que agora voltará para suas antigas colocações e esquecerá a guerra... e, depois de nós, crescerá uma geração, semelhante à que fomos em outros tempos, que nos será estranha e nos deixará de lado. Seremos inúteis para nós mesmos. Envelheceremos, alguns se adaptarão, outros simplesmente resignar-se-ão e a maioria ficará desorientada; os anos passarão e, por fim, pereceremos todos. (Erich M. Remarque. Nada de Novo no Front. São Paulo. Abril: 1981, p. 230-231.)


Quem o vê agora, esquecido de todos e de tudo à sua volta, corpo alquebrado pelo acúmulo de dias, carcomido pelas escaras, não diria estar diante de um combatente. Distinções de bravura foram muitas. O batismo de fogo foi na Itália, em Monte Castelo, onde ele e seus camaradas, para o bem da humanidade e da democracia, colocaram os chucrutes para correr. Muitos dos camaradas que o acompanharam nessa jornada épica não voltaram para suas famílias e para seus negócios no Brasil. Todos os que regressaram, porém, na medida do possível, tiveram cá suas honrarias: um simples lenitivo, uma vez que o tributo de sangue não é o único exigido dos heróis das grandes epopéias. Os mortos do campo de batalha e o horror da guerra cobram o preço definitivo da lembrança, marca indelével que distingue os que foram testemunha da demonstração cabal da intolerância. A guerra não é senão a máxima expressão da maior de todas as misérias humanas.

Voltou outro do front, os seus logo notaram a mudança: o olhar perdido sempre a fitar o vazio, a confusão do pensamento, os pesadelos que jamais o deixaram em paz. Agora suas forças o abandonaram e nada representa, relegado aos maus tratos de enfermeiras ineptas, financiadas com o minguado soldo que ainda recebe. A doença grassou de pouco em pouco, como num cerco, conquistando pequenas vantagens dias após dia, mas, enquanto pôde, ele ostentou uma independência orgulhosa, posto que falsa. Antes do fim, viu-se que tudo não passava de vã ilusão. Agora havia um primo distante que administrava o curto estipêndio, não oferecia nenhum suporte emocional, mas pelo menos garantia que um teto lhe cobriria a cabeça nos últimos dias que inexoravelmente se aproximavam.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

De vestes talares e judicioso talante




"Às vezes aspiro fundo e encho os pulmões de um ar insuportável, para ter alguns segundos de conforto, expelindo a dor. Mas bem antes da doença e da velhice, talvez minha vida já fosse um pouco assim, uma dorzinha chata a me espetar o tempo todo, e de repente uma lambada atroz. Quando perdi minha mulher, foi atroz. E qualquer coisa que eu recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta ferida."
Chico Buarque


A vida impõe tantas difíceis escolhas, são tantas as bifurcações que surgem ao caminho que às vezes parece impossível discernir para qualquer um que não possa contar com os favores de uma pitonisa.

Camisa azul ou verde? Gravata escura, terno claro? Antes do divórcio Justino sequer imaginava que cotidiano possuísse tantas amenidades, tantas especificidades e tão tortuosas escolhas. Afinal, a Dagmar sempre esteve lá para se ocupar dessas coisas pequenas. Houve um tempo que juraram um ao outro que ficariam sempre juntos, mas, depois, Justino optou pelo trabalho ao qual se dedicou com todo afinco, desprezando o melhor que podia a família, perdendo os melhores anos e deixando a pobre da Dagmar sozinha a educar os filhos e administrar a casa. Claro que ela se saiu bem, sobretudo com as crianças, mas agora que os pequenos cresceram e a Dagmar havia decido ir embora só havia restado o trabalho a Justino. Santa ironia, pois justo agora, quando ele tinha todo o tempo do mundo para o trabalho, o labor diário passou a lhe soar penoso.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Catarse

No começo aquilo parecia uma tortura. O tipo de sacrifício que as pessoas se impõem no decorrer da vida, pois têm certeza de que, passando por isso, atingirão um objetivo qualquer.

No total, o percurso se estendia pouco além de onze mil metros. Uma distância que um corredor relativamente bom cobre em aproximadamente 30 minutos. Ocorre que ele não era nenhum corredor profissional, longe disso. Quando começou, era um corredor afetado: contava cada passo, sentia cada pisada, abria a boca demais, abaixava a cabeça e se preocupava muito apenas com a pisada, tentando prevenir um possível trauma nas articulações do joelho e do tornozelo: primeiro o calcanhar, depois a planta do pé se amoldando ao chão até chegar à ponta dos dedos e oferecer um novo impulso e assim continuamente, um pé depois do outro. A falta da melhor técnica o fazia avançar muito pouco, malgrado grande desgaste. Sofreguidão ritmada e constante.

Sempre que partia se sentia um Fidípides e sabia que cairia morto ao final daquele sofrimento. Mas essa morte gloriosa não veio. Com o tempo o esforço foi se tornando natural. Pouco a pouco se familiarizava, se soltava e seu corpo respondia demonstrando adaptação. Como resultado passou a correr sem estar obcecado com a chegada, de sorte que já não era necessário dizer a si mesmo o tempo todo que não podia obedecer ao desejo de parar e se deitar no chão. Então, simplesmente corria, ocasionalmente e quase involuntariamente, controlava a intensidade dos movimentos para manter a média nas constantes saliências e reentrâncias do caminho.