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sábado, 1 de setembro de 2012

A Patrulha da Noite


Em suas Crônicas de Gelo e Fogo, o autor norte-americano George R. R. Martin concebeu A Patrulha da Noite, no original Night's Watch, como uma Ordem militar responsável pela segurança dos Sete Reinos de Westeros.

Em muitos momentos durante a leitura dos livros da saga, a comparação com os Cavaleiros Templários é quase inevitável. Afinal, assim como os integrantes da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (do latim Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici), os Patrulheiros da Noite são celibatários e não possuem bens.

Ouso dizer que a associação aos Templários só é amortecida quando, bem mais adiante, o leitor trava conhecimento com as ordens monásticas militares dos Filhos do Guerreiro e dos Pobres Irmãos que, por motivos óbvios, se parecem ainda mais com os Templários. Os Filhos do Guerreiro são cavaleiros que renunciam toda riqueza e aos prazeres da carne para juramentar suas espadas à Fé. Eles usavam mantos arco-íris e armadura embutida de prata por cima de cilícios, e trazem cristais em forma de estrela nos botões do punho das espadas. Por seu turno, Os Pobres Irmãos formam uma irmandade mendicante cujos membros trazem consigo machados de guerra e passam o tempo a correr pelas estradas, escoltando viajantes de septo em septo. O seu símbolo é a estrela de sete pontas, vermelha sobre branco. O povo simples chama aqueles de Espadas e estes de Estrelas.

domingo, 17 de junho de 2012

Febre de Bola de Nick Hornby



O Turbilhão Nervoso

Em Febre de bola encontramos divertidas partículas da experiência universal do futebol. O jogo que domina as mentes de milhões de seguidores e fãs pelo mundo. O esporte que, em larga medida, ignora as fronteiras naturais e, sobretudo, as fronteiras erigidas pelo homem. Em todos os continentes as crianças correm atrás da bola e lançam suas bobinadas certeiras enquanto gritam os nomes de seus heróis. A magia, o espetáculo, a paixão do futebol. Tantos são os adjetivos e as fórmulas utilizadas na tentativa de explicar o sentimento “sem nome” do futebol. Porém – máxima ironia – o senhor Nick Hornby, a seu modo, resolveu explicar isso tudo escrevendo um livro sobre ele mesmo.

Exatamente, conforme um grande amigo afirmou, Febre de Bola não é um livro sobre o futebol. Fever Pitch é o título original desse livro em que o autor relata momentos de sua vida entre 1968 e 1992, tendo como pano de fundo o futebol. Na verdade, posso dizer que vai um pouco além disso: o futebol para Hornby é muito mais do que um simples cenário, o futebol é a sua obsessão.

O autor tinha 13 anos de idade quando o mundo da bola se desvelou diante de seus olhos. A separação dos pais, justo naquela época, e as complicações próprias da aurora da adolescência são os ingredientes que transformaram a alma do autor em um campo fértil para o florescimento de uma paixão avassaladora, uma fuga, uma obsessão: o futebol.

domingo, 15 de abril de 2012

Napoleão: Máximas e Pensamentos, de Honoré de Balzac



O Moderno Prometeu

A primeira edição de “Napoleão: Máximas e Pensamentos” não apontava Honoré de Balzac como autor do prefácio e organizador, pois o célebre autor de “Le Lys dans la vallée”, precisando saldar alguns compromissos com seus credores, vendeu o livro a um certo J. L. Gaudy Jeune pela importância de 4 mil francos.

É, de fato, bastante curioso pensar em um dos maiores escritores de todos os tempos como uma espécie de ghost writer do século XIX. O equivalente moderno do “melhoro sua monografia” ou algo do gênero. A história, porém, aconteceu realmente. Balzac trabalhou árdua e incessantemente durante toda a vida para dar à luz sua vastíssima obra, era, para utilizar um termo em voga, um workaholic inveterado, movido a grandes doses de café forte, mas sempre passou por dificuldades financeiras. Quando ele nasceu, em 1799, Napoleão acabava de regressar do Egito para, após o 18 de Brumário, se tornar Cônsul da República Francesa ao lado de Ducos e Sieyès. O autor de “Ilusões Perdidas”, portanto, cresceu sob a influência do Fazedor de Reis. Como se sabe, nem mesmo a derrota sofrida em 1815 e o consequente exílio em Santa Helena, onde o Imperador morreu em 1821, tiveram o condão de enfraquecer o mito napoleônico. Muito pelo contrário, pois foi justamente durante a Restauração que a já legendária figura do Artilheiro de Toulon ascendeu ao quase sagrado.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O Leitor, de Bernhard Schlink


O majestosamente belo e o tetricamente trágico

O belo e o trágico andam lado a lado no livro do professor Bernhard Schlink, muito embora, é evidente, não se trate da beleza majestosa referida no título deste comentário. Antes, o livro contém uma beleza pálida, uma espécie de altivez insípida, como se tudo o que pudesse ser reconhecido como belo nesta estória estivesse a tal ponto subjugado pelas forças incoercíveis da tragédia humana que só pode ser lembrado envolto pelo manto desbotado que sói cobrir as piores lembranças da Segunda Guerra Mundial.

Nada obstante, essa beleza esmaecida bem existe. Há a beleza opaca da força que impele a sociedade rumo ao progresso, na tentativa de se reerguer dos escombros da guerra que, pela segunda vez em menos de 30 anos, devastou a Europa. Nesse cenário, Michael Berg, o jovem protagonista de 15 nos, vive com os pais em um (imagino) subúrbio da capital alemã e se prepara para voltar à escola depois de ter ficado afastado das aulas para se tratar de uma hepatite que contraiu.

domingo, 11 de março de 2012

Alea Jacta Est



Júlio César é um personagem que jamais poderá se despir por inteiro de sua larga máscara romântica. Seus renomados biógrafos Suetônio e Plutarco legaram ao mundo a fortíssima e indeteriorável imagem do Gaius Julius Caesar heróico, impiedoso, senhor da Gália e flagelo da república romana. O jovem que esteve do lado vencido de uma guerra civil e que, portanto, foi afastado do centro do poder, sendo, em seguida, sido feito cativo por corsários que exigiram 30 talentos de ouro pelo seu resgate. O jovem herói, entretanto, exigiu que o resgate não fosse menor que 50 talentos [1], afirmando que melhor que fosse assim, pois após ser libertado ele retornaria e crucificaria seus captores. Dito e feito: posto em liberdade, o jovem, não pela última vez, fez valer a palavra empenhada e ergueu diversas cruzes com piratas imolados em uma praia qualquer do Mediterrâneo.

Um início de carreira com muitos complicados entraves, que somados, talvez não permitissem aos seus contemporâneos antever o general e estadista brilhante que César se tornaria, anos mais tarde. Em 8 anos ele domou as tribos bárbaras e conquistou a Gália, submetendo Vercingentórix, o Rei de todos os gauleses, que foi conduzido e sacrificado diante das multidões romanas que aplaudiram César em seu grande Triunfo.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Guarda Morre...


mas não se rende

Era Precisamente 1h30min.
De repente, numa extensão de mais de quarto de légua, pareceu a terra entreabrir-se e vomitar o inferno. Grande frêmito inclino o centeio, fez tremer o solo e todos os seres vivos sentiram na medula a palpitação que produz o estrondo do raio. Foi o fragor percebido a cinquenta léguas de distância.
A um sinal do Príncipe de Moskova [Ney], começou a grande bateria a castigar a posição inglesa.
Marcel Dupont.

O livro de Marcel Dupont é um belíssimo relato de uma das mais famosas batalhas de todos os tempos, que se lê como um romance, mas, sem a menor dúvida, trata-se de um livro para iniciados. Estão, pois, sujeitos a ficarem relativamente perdidos em meios aos muitos nomes de pessoas e lugares que o autor declina a todo momento, aqueles leitores que, porventura, ignorem o panorama histórico do período conhecido como Os Cem Dias – lapso temporal que compreende os eventos desde a volta triunfal de Napoleão da Ilha de Elba, passando pela fuga de Luis XVIII, a nova aclamação do Imperador,  o advento da novel coalizão, a decisão de Napoleão de fazer o primeiro movimento de ataque na guerra inexorável, até a segunda abdicação, ocorrida após a vitória dos aliados em Waterloo.

Assim, para uma compreensão completa da narrativa, é recomendável, sobretudo, que o leitor esteja a par dos eventos ocorridos nos dias anteriores à Batalha de Waterloo, pois o autor se abstém em pormenorizar as duas importantíssimas batalhas havidas na véspera da grande hecatombe do Monte Saint-Jean: as Batalhas de Ligny e Quatre-Brás, que tiveram seriíssima repercussão em tudo o que fatalmente ocorreu no dia seguinte nas proximidades do lugarejo cujo nome até então era obscuro, mas que, após o ocorrido, ganhou eterna notoriedade, Waterloo.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Forte, de Bernard Cornwell


Novas de Majabigwaduce

A História é uma musa caprichosa e a fama é sua filha injusta.
Bernard Cornwell

Acabo de regressar de Castine que fica dentro do Condado de Hancock no glorioso estado do Maine, por sua vez localizado na região da Nova Inglaterra, no extremo nordeste dos Estados Unidos. O passeio foi curto, mas muito interessante: notei que um desavisado qualquer, subindo pela Wadsworth Cove Road, a partir da Angra de Wadsworth (Wadsworth Cove),poderia ignorar que ao passar pelas duas curvas fechadas, primeiro à esquerda,depois à direita, na verdade estaria contornando a face oeste do Forte George e, assim, se aproximando mais da fortificação do que os rebeldes jamais puderam fazer em 1799.

Seguindo pela Wadsworth Cove Road, deixando para trás o forte que há mais de 200 anos foi extraído da terra daquelas plagas pelo valoroso General McLean e batizado em homenagem a um monarca louco, virei à direita passando rapidamente pela perpendicular Battle Av. e novamente à esquerda para desembocar na Pleasant Street e seguir em direção à CastineHarbor singrando um dos orgulhos da região, a Maine Maritime Academy. À direita deparei-me com o Ritchie Field, o campo de football da academia e lembrei-me que, hoje em dia, olhando-se a região de cima, é muito mais fácil e natural localizar esse campo do que o velho forte, que só aparece após um meticuloso esquadrinhamento.

Por apego à precisão é preciso confessar que sequer levantei da cadeira. Hoje em dia serviços do Google como o Street View, Maps e o Earth possibilitam a qualquer um com acesso à internet semelhante experiência, que não deixa de ser assombrosa e fascinante. Contudo, este escrito é para relatar outra viagem: a real, a aventura na Baia de Penobscot, quando Castine ainda era conhecida pelo singelo nome de Majabigwaduce (Bagaduce, para os íntimos), quando ainda não havia o estado do Maine e toda aquela região pertencia a Massachusetts. Essa viagem foi-me proporcionada lendo as quase quinhentas páginas na edição brasileira de O Forte, de Bernard Cornwell. Sim, foi sem dúvida a aventura literária que inspirou a aludida exploração virtual daquelas paragens da Nova Inglaterra e muitas outras pesquisas.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

1822: carta ao autor

 

Prezado Laurentino Gomes,

Espero que possa perdoar minha ousadia em me dirigir a você para comentar minha leitura do seu último livro.

Trata-se, claro, do 1822. No qual você se digna a relatar “como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado.”

Antes de mais nada, aceite minhas sinceras e merecidas congratulações pela sua obra. Não falo, é evidente, apenas do 1822, pois acredito que o projeto que começou com a publicação do 1808 é um só, de forma que os elogios devem se estender ao livro anterior. Aliás, voltarei a tratar do 1808, por certo que a comparação entre os livros me parece inevitável.

Você acertou em cheio, Laurentino, meu caro! Esse país precisava de um estímulo desses para que, quem sabe no futuro, nosso povo tenha mais consciência do processo de formação de nossa cultura e pare, de uma vez por todas, de se comportar como se o Brasil tivesse sido inventado em 1958, com a vitória na Copa da Suécia.

Inclusive, a nossa falta de apego às nossas raízes foi oportunamente lembrada na dedicatória do 1822. Dedicatória brilhante, registre-se! Até gostaria bastante ter sido um professor de História, mas escolhi ser advogado. Um advogado que se define como um historiador diletante. Sou um apaixonado pela História, que padece o grande mal de viver em um “país sem memória”, se me permite a utilização da expressão. A dedicatória, portanto, não poderia ser mais acertada. Lembrei-me de um professor de história que tive, que além de muito carismático, era dono de uma voz potente que se alastrava por todos os cantos da classe e nos obrigava a prestar atenção nele, mesmo se não quiséssemos. Era inútil resistir às suas exposições sobre o mundo romano, as invasões bárbaras, o cristianismo ocidental, a idade média, a renascença, o mercantilismo até chegar às grandes navegações. Porém, a potência vocal não era o que verdadeiramente distinguia esse saudoso mestre, nada disso. O vultoso interesse que suas lições despertava irrompia, isto sim, da paixão com que ele tratava o tema e de sua abordagem sempre entusiástica e vibrante, que era capaz de nos fazer olhar pela janela por um instante e imaginar uma horda de hunos, liderados pelo invencível Átila, tomando a escola de assalto e espalhando o terror com suas flechas certeiras. Meu antigo professor de História, de quem nunca mais tive notícias, é um dos que mereceram a sua honesta homenagem, Laurentino.

terça-feira, 21 de junho de 2011

A Morte de Napoleão


A edição Brasileira

Mil vezes sutil

O ano do senhor de 2011 já avança a passos de carga rumo ao seu ocaso, mas a delicada e elegante edição de 1993, da Companhia das Letras, de A Morte de Napoleão ainda está disponível para venda nas principais livrarias. Não se trata de livro de bolso, a edição é refinada, em que pese o formato reduzido. Em verdade, chega a ter menores proporções que os pocket’s disponíveis atualmente no mercado editorial: os 11 x 15 cm deste romance de Simon Leys, por exemplo, parecem ainda menores se comparados com os 12 X 18 cm das edições da Best Bolso. O mesmo se observa em relação aos já clássicos 11,5 x 18 cm dos livros de bolso da Martin Claret e da Companhia de Bolso.

Por outro lado, ao perceber o valor mercadológico médio do livro, o leitor familiarizado com os preços atualmente praticados sente que está diante de uma obra fora de série, por certo que, atualmente, pelo preço que se paga por um exemplar da obra ora comentada, é possível adquirir 2 ou 3, a depender do título, dentre os livros de bolso de qualquer uma das editoras acima citadas.

Se, como outro dia mesmo ouvi dizer, ainda há quem compre livros pela capa ou apenas para compor a decoração do escritório, imagino que A Morte de Napoleão tenha largado em desvantagem, pois, como sói ocorrer em relação a todas as manifestações da delicadeza, é preciso ser dotado sutileza e espírito para apreciar a sua composição de aparente debilidade.

domingo, 8 de maio de 2011

O Filósofo e o Imperador

Capas das edições latinas: Brasil, Portugal e Espanha
A Justa Medida

O velho adágio dispensa explicações: “A cavalo dado não se olha os dentes”. Respeito bastante esta sentença popular, até porque é um dos ditados que me lembro de ouvir desde que era criança. Contudo, quando se ganha um livro não é bem assim. Antes, assim que o embrulho é aberto, quem recebeu o presente observa a capa, confere o título, sorri, faz passar as folhas rapidamente, como a conferir se estão todas ali e, quase sempre, diz algo do gênero de “ora, é maravilhoso, mas realmente não precisava se incomodar”. Sem mais delongas, considero um livro o melhor presente, sempre. Seja quando se oferece, seja quando se recebe, não há nada como um livro, um presente em si mesmo.

Quando ganhei “O Filósofo e o Imperador” da lavra escritora canadense Annabel Lyon eu não o conhecia. De pronto, a belíssima capa da edição brasileira da editora Leya me despertou a atenção: fundo negro destacando a silhueta de um grande corcel, também negro, recebendo no focinho o afago de um braço direito alongado. A lombada rosa shock cria um contraste explosivo, resultando em um conjunto, por assim dizer, contemporâneo. Uma rápida passada de olhos pelo subtítulo: “Um romance sobre Aristóteles e Alexandre”. “Que grande dupla” eu pensei. Normalmente o tema teria bastado para despertar o meu interesse: “Muito bem, este vai para a fila.” Estava decidido.

Antes de avançar é preciso dizer que minha relação com meus livros começa bem antes da leitura propriamente dita. Por mais que eu seja adepto da prática de ler vários ao mesmo tempo, não é possível ler todos. Assim, como uma espécie de bibliotecário amador dos meus próprios volumes, eu os seleciono em uma ordem de leitura semi-rígida, que segue um instinto natural. Alguns para serem lidos outros relidos. Naturalmente, a ordem não pode controlar interesses despertados inopinadamente e quase sempre há um ou outro título a furar a fila.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Alexándros

Versão grega do romance de Manfredi

Comparisons Are Odious

Comparações são realmente odiosas e não foi outro senão o próprio Bernard Cornwell que, certa feita, me disse isso. Contudo, ao terminar a leitura do primeiro volume da trilogia “Alexándros” de Valerio Massimo Manfredi, intitulado “O sonho de Olympias”, não pela última vez, tive a sensação de que Bernard Cornwell teria escrito aquele livro de forma muito parecida. Ou seja, o estilo de Valerio Massimo Manfredi me fez lembrar os escritos de Cornwell. Claro que Manfredi possui seu próprio estilo, excelente por sinal, porém a forma com que este italiano demonstra se preocupar com o aspecto historiográfico, fazendo questão de registrar as alterações a que foi obrigado em sua adaptação, lembra bastante o que o seu colega inglês faz em seus romances históricos.

Antes de avançar, devo explicar que não há nenhum equívoco no que disse no primeiro parágrafo: sim, aquilo é a mais absoluta verdade. Bernard Cornwell, dentre outras coisas, de fato, me disse : “[...] comparisons are odious!” Na ocasião, eu havia perguntado ao autor, por meio de um campo próprio em seu website oficial, quem era o melhor dentre três dos seus heróis mais famosos e o autor de “Crônicas de Arthur”, com a grande gentileza e simpatia que reconhecidamente lhe são peculiares, não me deixou sem reposta, fazendo constar que eles, os heróis, eram equivalentes: “Oh, they’re equals”.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A Batalha de Waterloo: a última jogada de Napoleão


A Centelha Moral

A fisionomia do autor, o festejado historiador Andrew Roberts é bem conhecida dos apreciadores dos programas históricos transmitidos pelo History Channel, Discovery Civilization, National Geographic, entre outros. Em seu site oficial podemos encontrar seu belíssimo currículo acadêmico, as indicações dos prêmios que recebeu, as obras que publicou, etc. Além disso há uma informação relevante para o leitor do título ora comentado, que, em tese, tornariam ainda mais vultosas as suas credencias: “He has also been elected a Fellow of the Napoleonic Institute[1].

Seu editor brasileiro, a Companhia das Letras, não faz por menos e decreta sobre Roberts: “É fellow do Instituto de Estudos Napoleônicos e faz conferências sobre Napoleão nos Estados Unidos, Canadá e na Grã-Bretanha [2].

Infelizmente não pude precisar se, por ventura, estariam se referindo à International Napoleonic Society (INS), ou outra associação dedicada à memória de Napoleão Bonaparte.

Tampouco, no decorrer da leitura, logrei encontrar muitos traços de admiração do autor em relação a Napoleão. Antes, a devoção de Andrew Roberts é dedicada ao outro grande personagem da batalha objeto de seu estudo: ninguém menos que o grande vencedor de Waterloo, Arthur Wellesley, o colossal Duque de Wellington.

O título original é Waterloo: Napoleon’s Last Gamble. Como se sabe, a escolha do título de uma obra nunca é por acaso e no caso desta obra, não seria um exagero dizer que a escolha do da expressão “last gamble” já trairia certa parcialidade deste relato de Waterloo feito por Roberts. Minha desconfiança apenas aumentou quando me depararei com a dedicatória:

“A Robin Birley, sobrinho-tetraneto de lord Castlereagh, estrategista-mor da coalizão que destruiu Napoleão.”


sábado, 18 de dezembro de 2010

O Ouro de Sharpe


A Voz do Vencedor

Agora que começo a traçar estas linhas, acabo de regressar da Livraria Cultura. Naturalmente, um passeio perturbador para qualquer bibliófilo, por menos obsessivo que seja. Em meio a uma variedade infindável de títulos e volumes disponíveis, me detive alguns minutos admirando um: “Sharpe's Waterloo”.

Tratava-se de uma edição da HarperCollins de 2010, classificada como “paperback”, do tipo que, por aqui, poderíamos definir simplesmente como “brochura”, se fosse possível – claro está – não considerarmos que depois que os Beatles cantaram “Paperback writer. Please, sir or madam, can you read my book?” o termo ganhou outros significados correntes. Sim, pois, após essa intervenção pontual da cultura pop, “paperback”, mais do que nunca, passou a ter a conotação geral de publicação de baixo custo, quiçá baixa qualidade, seja do insumo empregado na própria edição, seja relativa à aptidão e aos rudimentos literários do escritor. Seguramente, trata-se de avassaladora bobagem, pois todos os grandes escritores publicados nos Estados Unidos e na Europa possuem edições em “paperback”, o que, a toda evidência, diminui sensivelmente o custo final do produto e o grande beneficiado não é outro senão o leitor.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Condenado, de Bernard Cornwell

A Pérola Subestimada

“Gallows Thief” é o título original de mais esse excelente romance de Bernard Cornwell. Como se sabe, a versão publicada no Brasil pela Editora Record foi chamada de “O Condenado”. O livro é brilhante: as descrições são finas e detalhadas; a trama é surpreendente e divertida; as referências culturais são muitas e variadas; e as personagens marcantes. Tudo em sua composição parece obedecer a uma ordem bem planejada e minuciosa, como sói ocorrer com os romances históricos assinados por Cornwell.

É de se notar, entretanto, que o livro não foi recebido pelo mercado brasileiro com o entusiasmo que merecia. Talvez – mera especulação – apenas sintoma da tradução do título do livro o fazendo parecer um dos romances jurídicos do advogado norte-americano John Grisham. Isso poderia afastar os fãs de romances históricos, porém o nome de Bernard Cornwell, certamente, os traria de volta, ainda que o autor não contasse com uma legião de fiéis seguidores no Brasil. Talvez o sucesso de outros livros do autor, talvez a falta de uma campanha de marketing mais agressiva por parte dos editores brasileiros de Cornwell, resta saber. O fato é que “O Condenado”, entre os títulos publicados no Brasil, é um dos últimos lembrados quando se pensa no escritor inglês, o que, definitivamente, é uma pena. Em minha modesta perspectiva, o público em geral, de uma forma ou de outra, subestima este livro e com isso perde uma grande aventura de investigação policial, ambientada na Inglaterra dickensiana do início do Século XIX.

sábado, 18 de setembro de 2010

O Conde de Monte Cristo

Estou convencido de que alguns livros inspiram certa saudade antecipada antes mesmo que se leia a última página. À medida que o final se aproxima, por mais que se anseie descobrir o desfecho, toma corpo o lamento pela iminente despedida.

Este certamente é o caso de O Conde de Monte Cristo. Não é fácil vencer as quase mil e quatrocentas páginas dos dois volumes da edição definitiva da editora Jorge Zahar¹, que superou minhas expectativas pela qualidade e inclui belas ilustrações da época de lançamento original, em folhetim. Essa densidade fez com que o livro me acompanhasse por algumas semanas, mais de oito no total, me tornando íntimo das personagens e de suas histórias particulares.

Assim, cada vez que via diminuir o número de páginas faltantes, orientado por um cartão de visitas que utilizei à guisa de marcador, desejava que houvessem mais dois volumes adicionais aguardando no armário.

Naturalmente, trata-se de um desejo paradoxal em um mundo que considera prolixo qualquer texto que ultrapasse os 140 caracteres de uma twitada. Ademais, a rigor, o tal desejo continua sem fazer sentido quando se considera que a melhor parte do romance são os relatos da prisão de Dantès, mais especificamente do seu encontro com o Abade Faria até sua fuga. Poucas boas explicações, porém, advém de ilações tão simples assim.

É certo que a narrativa da fuga, do encontro com os corsários, do achado do tesouro e da vingança evidentemente contribuem para tornar obra ora comentada indispensável, mas nada se compara ao encontro com o velho clérigo italiano.


quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Nome da Rosa¹

Quando alguém se determina a ler O Nome da Rosa² também está decidindo adentrar na santíssima abadia que o bom Adso considerou piedoso não revelar o nome.

Todavia, apenas é dado sair desse imponente reduto beneditino, encravado nas montanhas da região setentrional da Itália, àquele que ali permanece por sete dias, orientado pelas horas canônicas, o divinum officium, fixadas na regra pelo próprio santo fundador da Ordem.

É bom que se diga que a expressão “viver sete dias na abadia” é utilizada pelo próprio autor no complemento indispensável “Pós-Escrito a O Nome da Rosa”, obra em que Umberto Eco sustenta que a premissa inafastável para se chegar ao sétimo dia é aceitar o ritmo da abadia.

Segundo ele, as cem primeiras páginas do livro revelam tal e tão didático tom que foram mantidas, ignorando sugestão em contrário do primeiro editor, para testar e penitenciar o incauto leitor. Penitenziagite! Sim é preciso pagar tal tributo para ultrapassar a estrada sinuosa e escarpada que leva à abadia. Do contrário, permanece-se abandonado nas encostas, do lado de fora das muralhas e ignorante acerca de uma obra sem paralelos.