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terça-feira, 31 de julho de 2012

Keep Calm and Carry On



Não sei bem se nos últimos meses ou semanas, o antigo cartaz motivacional produzido pelo governo britânico em 1939 se espalhou de tal forma pela internet que muitas pessoas, que, alias,já viram quase todas as múltiplas versões produzidas por milhares, quiçá milhões, de internautas, não sabem como tudo começou.

Antes de virar meme, antes de viralizar, a mensagem Keep Calm and Carry On fez parte de uma série de cartazes que o Ministério da Informação, antecipando os dias difíceis que viriam pela frente, concebeu logo no início do conflito que viria a ser conhecido como a Segunda Guerra Mundial.

Assim, em 1939, visando aplacar as fortes tensões sociais de um território que, em pouco tempo, se tornaria um dos principais alvos dos bombardeios alemães, as mensagens foram criadas e começaram a ser difundidas para elevar o moral da população inglesa.

Inicialmente eram três cartazes, em verdade bastante simples, todos com a mesma tipologia, uma fonte facilmente reconhecível e ao mesmo tempo difícil de ser copiada pelo inimigo, confeccionados em apenas duas cores e ostentando uma frase de impacto, que tem como pedra angular a coroa britânica, do então Rei George VI.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

As origens da queda do absolutismo


Não raras fontes históricas defendem que a monarquia francesa encontrou seu fim ao pé do cadafalso e, segundo essas mesmas fontes, a expressão máxima de sua derrocada teria ocorrido em 21 de janeiro de 1793, quando o povo francês decapitou seu Rei, o monarca Luis XVI. Munro Price [1] lembra que antes desse evento dramático, a monarquia era uma estrutura grandiosa, malgrado todas as suas rachaduras, e o rei que, por fim, ficou uma cabeça menor governava por Direito Divino, sendo responsável por suas ações apenas diante de Deus.

Antes de prosseguir, é bom que se diga que cortar a cabeça de um rei não era novidade na Europa, pois em 1649, a Câmara dos Comuns criou uma corte (Tribunal de Exceção? Sim, claro) para promover o julgamento de Carlos I. Assim, no dia 29 de janeiro daquele mesmo Ano do Senhor de 1649, Carlos I foi condenado à morte por decapitação e – celeridade a toda prova –, decapitado já no dia seguinte, do lado de fora da Banqueting House.

Ao matar um rei, portanto, não significa acabar com a monarquia. Mesmo porque, na França, ao contrário do que ocorrera antes da Inglaterra, houve a Revolução. Segundo M. J. Roberts [2], a Revolução Francesa compreende conjunto de eventos ocorridos entre 5 de maio de 1789, com a convocação dos Estados Gerais e a famosa Queda da Bastilha e 9 de novembro de 1799, com o 18 de Brumário de Napoleão Bonaparte.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Os Nove da Fama



Os Nove da Fama são os nove príncipes legendários que personificam os ideais da cavalaria, quiçá a maior de todas as instituições humanas da Idade Média. No idioma de Denis Diderot, eles são chamados de Les Neuf Preux, que em tradução livre (e não menos literal) poderia soar como “os nove valentes”,  termo que passa uma ideia mais precisa do tipo de virtude moral que foi considerada para a escolha daqueles soldados que passariam a ser sinônimo dos elevados ideais cavaleirescos. Na Itália eles são conhecidos como Nove Prodi. Em inglês o termo utilizado para designá-los é Nine Worthies.

Os escolhidos compõem três grupos triádicos orientados pelas religiões que professaram: três gentios (Heitor, Alexandre e Júlio César); três judeus (Josué, Davi e Judas Macabeu); e três cristãos (o Rei Arthur, Carlos Magno e Godofredo de Bouillon).

Esses grandes cavaleiros representam todas as facetas do guerreiro perfeito. Com exceção de Heitor e Arthur, todos são heróis conquistadores. Aqueles que não eram príncipes vieram de famílias da aristocracia. No universo da cavalaria seus predicados e suas virtudes são reconhecidas por sua atemporalidade e universalidade. Todos trouxeram glória e honra para suas nações, e foram conhecidos por sua habilidade pessoal nas armas. Individualmente, cada um exibia alguma qualidade excepcional que os tornou o modelo de cavaleiro.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Até quando, Catilina?




Marcus Tullius Cicero nasceu em Arpino, por volta de 106 a.C. Passou à História como uma das mentes mais atiladas da antiga Roma. Sua versatilidade fez com que seja ainda hoje reconhecido como grande advogado, orador sublime, político, magistrado, filósofo, linguista e tradutor.

Ana Teresa Marques Gonçalves [1], que elaborou estudo da obra De Legibus de Cícero [2] afirma a família do grande orador pertencia à ordem equestre, de maneira que, para ascender à ordem senatorial, Cícero foi submetido a uma cuidadosa e criteriosa educação.  Sabe-se que Cícero foi Questor na Sicília em 76 a. C. e Edil Curul em 70 a. C. No ápice de sua carreira política, Cícero foi Cônsul da República, mas foi degredado em 58 a.C.

Júlio César concedeu a anistia a Cícero que voltou a Roma. Sendo, inclusive, durante  a Ditadura de César que ele produziu várias de suas obras. Contudo, no período conturbado que se seguiu desde a morte de César até a ascensão de Otávio Augusto ao trono, o autor de De re publica foi morto a mando e a soldo de Marco Antônio, que em um gesto ao mesmo tempo bárbaro e simbólico mandou pregar as mãos que haviam escrito às novas Filipicas [3], juntamente com a cabeça, na rostra no Fórum Romano, o habitat natural de Cícero, local onde provavelmente proferiu as Catilinárias, as célebres orações acusatórias contra Catilina que ainda hoje ecoam mundo a fora.

domingo, 15 de abril de 2012

Napoleão: Máximas e Pensamentos, de Honoré de Balzac



O Moderno Prometeu

A primeira edição de “Napoleão: Máximas e Pensamentos” não apontava Honoré de Balzac como autor do prefácio e organizador, pois o célebre autor de “Le Lys dans la vallée”, precisando saldar alguns compromissos com seus credores, vendeu o livro a um certo J. L. Gaudy Jeune pela importância de 4 mil francos.

É, de fato, bastante curioso pensar em um dos maiores escritores de todos os tempos como uma espécie de ghost writer do século XIX. O equivalente moderno do “melhoro sua monografia” ou algo do gênero. A história, porém, aconteceu realmente. Balzac trabalhou árdua e incessantemente durante toda a vida para dar à luz sua vastíssima obra, era, para utilizar um termo em voga, um workaholic inveterado, movido a grandes doses de café forte, mas sempre passou por dificuldades financeiras. Quando ele nasceu, em 1799, Napoleão acabava de regressar do Egito para, após o 18 de Brumário, se tornar Cônsul da República Francesa ao lado de Ducos e Sieyès. O autor de “Ilusões Perdidas”, portanto, cresceu sob a influência do Fazedor de Reis. Como se sabe, nem mesmo a derrota sofrida em 1815 e o consequente exílio em Santa Helena, onde o Imperador morreu em 1821, tiveram o condão de enfraquecer o mito napoleônico. Muito pelo contrário, pois foi justamente durante a Restauração que a já legendária figura do Artilheiro de Toulon ascendeu ao quase sagrado.

sexta-feira, 30 de março de 2012

O Leitor, de Bernhard Schlink


O majestosamente belo e o tetricamente trágico

O belo e o trágico andam lado a lado no livro do professor Bernhard Schlink, muito embora, é evidente, não se trate da beleza majestosa referida no título deste comentário. Antes, o livro contém uma beleza pálida, uma espécie de altivez insípida, como se tudo o que pudesse ser reconhecido como belo nesta estória estivesse a tal ponto subjugado pelas forças incoercíveis da tragédia humana que só pode ser lembrado envolto pelo manto desbotado que sói cobrir as piores lembranças da Segunda Guerra Mundial.

Nada obstante, essa beleza esmaecida bem existe. Há a beleza opaca da força que impele a sociedade rumo ao progresso, na tentativa de se reerguer dos escombros da guerra que, pela segunda vez em menos de 30 anos, devastou a Europa. Nesse cenário, Michael Berg, o jovem protagonista de 15 nos, vive com os pais em um (imagino) subúrbio da capital alemã e se prepara para voltar à escola depois de ter ficado afastado das aulas para se tratar de uma hepatite que contraiu.

domingo, 11 de março de 2012

Alea Jacta Est



Júlio César é um personagem que jamais poderá se despir por inteiro de sua larga máscara romântica. Seus renomados biógrafos Suetônio e Plutarco legaram ao mundo a fortíssima e indeteriorável imagem do Gaius Julius Caesar heróico, impiedoso, senhor da Gália e flagelo da república romana. O jovem que esteve do lado vencido de uma guerra civil e que, portanto, foi afastado do centro do poder, sendo, em seguida, sido feito cativo por corsários que exigiram 30 talentos de ouro pelo seu resgate. O jovem herói, entretanto, exigiu que o resgate não fosse menor que 50 talentos [1], afirmando que melhor que fosse assim, pois após ser libertado ele retornaria e crucificaria seus captores. Dito e feito: posto em liberdade, o jovem, não pela última vez, fez valer a palavra empenhada e ergueu diversas cruzes com piratas imolados em uma praia qualquer do Mediterrâneo.

Um início de carreira com muitos complicados entraves, que somados, talvez não permitissem aos seus contemporâneos antever o general e estadista brilhante que César se tornaria, anos mais tarde. Em 8 anos ele domou as tribos bárbaras e conquistou a Gália, submetendo Vercingentórix, o Rei de todos os gauleses, que foi conduzido e sacrificado diante das multidões romanas que aplaudiram César em seu grande Triunfo.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

The Motherland Calls


Espaço, tempo e os elementos drenaram a força e a vitalidade do agressor. Ao invadir a Rússia, a Alemanha penetrou num clima diferente, e seus exércitos precisaram lidar com mudanças de estação repentinas e violentas. A estratégia alemã da guerra-relâmpago era inadequada para operações continuadas, e os rigores do inverno de 1941 surpreenderam o profeta da Nova Ordem. Quando chegou o frio, este matou mais soldados alemães do que as balas e baionetas russas. No entanto, seria equívoco presumir que o xeque-mate sofrido por Hitler, superando em muito as perdas de Napoleão de Moscou, deveu-se apenas a uma mudança do clima. Foram os sacrifícios dos russos que conseguiram isso – o que não muda a conclusão de que seis semanas de tempo clemente poderiam ter feito diferença para o maior ataque militar de todos os tempos. Mas o general inverno, o eterno aliado da Santa Mãe Rússia, não permitiu. (Erik Durschimied. Como a natureza mudou a História. Rio de Janeiro. Ediouro: 2004, p. 226-227.)
A historiografia relata que o solo sagrado da Mãe Rússia jamais foi expugnado pelo inimigo estrangeiro. Carlos XII da Suécia marchou sobre a Rússia no bojo da Grande Guerra do Norte em 1707. O rei sueco conquistou importantes vitórias, porém, seu exército encontrou a aniquilação em Poltava, marcando, assim, o fim da trajetória da Suécia como uma grande nação européia. Napoleão, por seu turno, chegou a tomar Moscou e passar uma noite no próprio Kremilin, porém, a desastrosa retirada sob o látego impiedoso do General Inverno solapou as bases do Primeiro Império Francês, uma vez que a fina flor da soldadesca francesa pereceu sob toneladas de gelo. O último a tentar foi Hittler. O último a fracassar também. Erik Durschmied, em seu revelador Como a Natureza Mudou a História, cujo breve excerto transcrevemos acima à guisa de epígrafe da presente exposição, relata como os temidos Panzers congelaram e afundaram na lama, perecendo sob a pesada mão do General Inverno, o mesmo que um século e meio antes havia subjugado o Vencedor de Austerlitz.

Nada obstante, hoje em dia muito se fala da decisiva Vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, do Dia D, quando a maior armada que o mundo já vira tomou as desoladas areias de Omaha Beach. Para os russos, porém, a Segunda Guerra não foi uma vitória do bem contra o mal nazi-fascista. Antes, para os russos, não houve uma simples vitória dos aliados sobre os alemães. Para esses renitentes cossacos, o que houve foi uma vitória do povo russo. Todos na Rússia, do mais jovem e ignaro estudante até o mais encanecido ancião, sabem que a Segunda Guerra é a grande vitória russa.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A Guarda Morre...


mas não se rende

Era Precisamente 1h30min.
De repente, numa extensão de mais de quarto de légua, pareceu a terra entreabrir-se e vomitar o inferno. Grande frêmito inclino o centeio, fez tremer o solo e todos os seres vivos sentiram na medula a palpitação que produz o estrondo do raio. Foi o fragor percebido a cinquenta léguas de distância.
A um sinal do Príncipe de Moskova [Ney], começou a grande bateria a castigar a posição inglesa.
Marcel Dupont.

O livro de Marcel Dupont é um belíssimo relato de uma das mais famosas batalhas de todos os tempos, que se lê como um romance, mas, sem a menor dúvida, trata-se de um livro para iniciados. Estão, pois, sujeitos a ficarem relativamente perdidos em meios aos muitos nomes de pessoas e lugares que o autor declina a todo momento, aqueles leitores que, porventura, ignorem o panorama histórico do período conhecido como Os Cem Dias – lapso temporal que compreende os eventos desde a volta triunfal de Napoleão da Ilha de Elba, passando pela fuga de Luis XVIII, a nova aclamação do Imperador,  o advento da novel coalizão, a decisão de Napoleão de fazer o primeiro movimento de ataque na guerra inexorável, até a segunda abdicação, ocorrida após a vitória dos aliados em Waterloo.

Assim, para uma compreensão completa da narrativa, é recomendável, sobretudo, que o leitor esteja a par dos eventos ocorridos nos dias anteriores à Batalha de Waterloo, pois o autor se abstém em pormenorizar as duas importantíssimas batalhas havidas na véspera da grande hecatombe do Monte Saint-Jean: as Batalhas de Ligny e Quatre-Brás, que tiveram seriíssima repercussão em tudo o que fatalmente ocorreu no dia seguinte nas proximidades do lugarejo cujo nome até então era obscuro, mas que, após o ocorrido, ganhou eterna notoriedade, Waterloo.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Adeus de Fontainebleau

Que Ce Dernier Baiser Passe Dans Vos Coeurs!


No dia 20 de abril de 1814, em um dos momentos mais dramáticos e arrebatadores de sua epopéia, o Imperador Napoleão I, acompanhado de alguns poucos oficiais, desceu as escadarias em forma de ferradura do Palácio de Fontainebleau, que dão acesso ao Pátio do Cavalo Branco, para se despedir de sua Velha Guarda. Oficialmente, naquele momento, ele já deixara de ser o imperador dos franceses. Ele, pois, havia abdicado. Terminara o seu sonho de uma Europa Unificada sob o domínio francês.

Dois anos antes, aqueles bravos homens haviam marchado sob o seu comando através das estepes russas até Moscou. Durante toda a campanha eles não conheceram derrota em uma batalha sequer. O Czar, porém, abandonou a cidade e os poucos habitantes que restaram preferiram entregar sua capital às chamas a entregá-la aos franceses. E, assim, na noite em que Napoleão dormiu no Kremlin, Moscou ardeu. A retirada foi desastrosa. O “General Inverno” mostrou mais uma vez porque o solo da sagrada Mãe Rússia jamais foi conquistado pelo inimigo estrangeiro. O frio extremo, para o qual não estavam preparados, a fome que grassava entre as tropas e as investidas dos terríveis cavaleiros Cossacos ceifaram a vida de aproximadamente 570 mil homens (NICOLSON, 1987, p. 242). Com isso, La Grande Armeé, o Grande Exército de Napoleão foi desbaratado. Estima-se que a fina-flor da juventude francesa pereceu sob camadas de neve e trespassada pelas lanças dos Cossacos.