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terça-feira, 21 de junho de 2011

A Morte de Napoleão


A edição Brasileira

Mil vezes sutil

O ano do senhor de 2011 já avança a passos de carga rumo ao seu ocaso, mas a delicada e elegante edição de 1993, da Companhia das Letras, de A Morte de Napoleão ainda está disponível para venda nas principais livrarias. Não se trata de livro de bolso, a edição é refinada, em que pese o formato reduzido. Em verdade, chega a ter menores proporções que os pocket’s disponíveis atualmente no mercado editorial: os 11 x 15 cm deste romance de Simon Leys, por exemplo, parecem ainda menores se comparados com os 12 X 18 cm das edições da Best Bolso. O mesmo se observa em relação aos já clássicos 11,5 x 18 cm dos livros de bolso da Martin Claret e da Companhia de Bolso.

Por outro lado, ao perceber o valor mercadológico médio do livro, o leitor familiarizado com os preços atualmente praticados sente que está diante de uma obra fora de série, por certo que, atualmente, pelo preço que se paga por um exemplar da obra ora comentada, é possível adquirir 2 ou 3, a depender do título, dentre os livros de bolso de qualquer uma das editoras acima citadas.

Se, como outro dia mesmo ouvi dizer, ainda há quem compre livros pela capa ou apenas para compor a decoração do escritório, imagino que A Morte de Napoleão tenha largado em desvantagem, pois, como sói ocorrer em relação a todas as manifestações da delicadeza, é preciso ser dotado sutileza e espírito para apreciar a sua composição de aparente debilidade.

domingo, 8 de maio de 2011

O Filósofo e o Imperador

Capas das edições latinas: Brasil, Portugal e Espanha
A Justa Medida

O velho adágio dispensa explicações: “A cavalo dado não se olha os dentes”. Respeito bastante esta sentença popular, até porque é um dos ditados que me lembro de ouvir desde que era criança. Contudo, quando se ganha um livro não é bem assim. Antes, assim que o embrulho é aberto, quem recebeu o presente observa a capa, confere o título, sorri, faz passar as folhas rapidamente, como a conferir se estão todas ali e, quase sempre, diz algo do gênero de “ora, é maravilhoso, mas realmente não precisava se incomodar”. Sem mais delongas, considero um livro o melhor presente, sempre. Seja quando se oferece, seja quando se recebe, não há nada como um livro, um presente em si mesmo.

Quando ganhei “O Filósofo e o Imperador” da lavra escritora canadense Annabel Lyon eu não o conhecia. De pronto, a belíssima capa da edição brasileira da editora Leya me despertou a atenção: fundo negro destacando a silhueta de um grande corcel, também negro, recebendo no focinho o afago de um braço direito alongado. A lombada rosa shock cria um contraste explosivo, resultando em um conjunto, por assim dizer, contemporâneo. Uma rápida passada de olhos pelo subtítulo: “Um romance sobre Aristóteles e Alexandre”. “Que grande dupla” eu pensei. Normalmente o tema teria bastado para despertar o meu interesse: “Muito bem, este vai para a fila.” Estava decidido.

Antes de avançar é preciso dizer que minha relação com meus livros começa bem antes da leitura propriamente dita. Por mais que eu seja adepto da prática de ler vários ao mesmo tempo, não é possível ler todos. Assim, como uma espécie de bibliotecário amador dos meus próprios volumes, eu os seleciono em uma ordem de leitura semi-rígida, que segue um instinto natural. Alguns para serem lidos outros relidos. Naturalmente, a ordem não pode controlar interesses despertados inopinadamente e quase sempre há um ou outro título a furar a fila.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Alexándros

Versão grega do romance de Manfredi

Comparisons Are Odious

Comparações são realmente odiosas e não foi outro senão o próprio Bernard Cornwell que, certa feita, me disse isso. Contudo, ao terminar a leitura do primeiro volume da trilogia “Alexándros” de Valerio Massimo Manfredi, intitulado “O sonho de Olympias”, não pela última vez, tive a sensação de que Bernard Cornwell teria escrito aquele livro de forma muito parecida. Ou seja, o estilo de Valerio Massimo Manfredi me fez lembrar os escritos de Cornwell. Claro que Manfredi possui seu próprio estilo, excelente por sinal, porém a forma com que este italiano demonstra se preocupar com o aspecto historiográfico, fazendo questão de registrar as alterações a que foi obrigado em sua adaptação, lembra bastante o que o seu colega inglês faz em seus romances históricos.

Antes de avançar, devo explicar que não há nenhum equívoco no que disse no primeiro parágrafo: sim, aquilo é a mais absoluta verdade. Bernard Cornwell, dentre outras coisas, de fato, me disse : “[...] comparisons are odious!” Na ocasião, eu havia perguntado ao autor, por meio de um campo próprio em seu website oficial, quem era o melhor dentre três dos seus heróis mais famosos e o autor de “Crônicas de Arthur”, com a grande gentileza e simpatia que reconhecidamente lhe são peculiares, não me deixou sem reposta, fazendo constar que eles, os heróis, eram equivalentes: “Oh, they’re equals”.

domingo, 16 de janeiro de 2011

O Adeus de Fontainebleau

Que Ce Dernier Baiser Passe Dans Vos Coeurs!


No dia 20 de abril de 1814, em um dos momentos mais dramáticos e arrebatadores de sua epopéia, o Imperador Napoleão I, acompanhado de alguns poucos oficiais, desceu as escadarias em forma de ferradura do Palácio de Fontainebleau, que dão acesso ao Pátio do Cavalo Branco, para se despedir de sua Velha Guarda. Oficialmente, naquele momento, ele já deixara de ser o imperador dos franceses. Ele, pois, havia abdicado. Terminara o seu sonho de uma Europa Unificada sob o domínio francês.

Dois anos antes, aqueles bravos homens haviam marchado sob o seu comando através das estepes russas até Moscou. Durante toda a campanha eles não conheceram derrota em uma batalha sequer. O Czar, porém, abandonou a cidade e os poucos habitantes que restaram preferiram entregar sua capital às chamas a entregá-la aos franceses. E, assim, na noite em que Napoleão dormiu no Kremlin, Moscou ardeu. A retirada foi desastrosa. O “General Inverno” mostrou mais uma vez porque o solo da sagrada Mãe Rússia jamais foi conquistado pelo inimigo estrangeiro. O frio extremo, para o qual não estavam preparados, a fome que grassava entre as tropas e as investidas dos terríveis cavaleiros Cossacos ceifaram a vida de aproximadamente 570 mil homens (NICOLSON, 1987, p. 242). Com isso, La Grande Armeé, o Grande Exército de Napoleão foi desbaratado. Estima-se que a fina-flor da juventude francesa pereceu sob camadas de neve e trespassada pelas lanças dos Cossacos.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A Batalha de Waterloo: a última jogada de Napoleão


A Centelha Moral

A fisionomia do autor, o festejado historiador Andrew Roberts é bem conhecida dos apreciadores dos programas históricos transmitidos pelo History Channel, Discovery Civilization, National Geographic, entre outros. Em seu site oficial podemos encontrar seu belíssimo currículo acadêmico, as indicações dos prêmios que recebeu, as obras que publicou, etc. Além disso há uma informação relevante para o leitor do título ora comentado, que, em tese, tornariam ainda mais vultosas as suas credencias: “He has also been elected a Fellow of the Napoleonic Institute[1].

Seu editor brasileiro, a Companhia das Letras, não faz por menos e decreta sobre Roberts: “É fellow do Instituto de Estudos Napoleônicos e faz conferências sobre Napoleão nos Estados Unidos, Canadá e na Grã-Bretanha [2].

Infelizmente não pude precisar se, por ventura, estariam se referindo à International Napoleonic Society (INS), ou outra associação dedicada à memória de Napoleão Bonaparte.

Tampouco, no decorrer da leitura, logrei encontrar muitos traços de admiração do autor em relação a Napoleão. Antes, a devoção de Andrew Roberts é dedicada ao outro grande personagem da batalha objeto de seu estudo: ninguém menos que o grande vencedor de Waterloo, Arthur Wellesley, o colossal Duque de Wellington.

O título original é Waterloo: Napoleon’s Last Gamble. Como se sabe, a escolha do título de uma obra nunca é por acaso e no caso desta obra, não seria um exagero dizer que a escolha do da expressão “last gamble” já trairia certa parcialidade deste relato de Waterloo feito por Roberts. Minha desconfiança apenas aumentou quando me depararei com a dedicatória:

“A Robin Birley, sobrinho-tetraneto de lord Castlereagh, estrategista-mor da coalizão que destruiu Napoleão.”


sábado, 18 de dezembro de 2010

O Ouro de Sharpe


A Voz do Vencedor

Agora que começo a traçar estas linhas, acabo de regressar da Livraria Cultura. Naturalmente, um passeio perturbador para qualquer bibliófilo, por menos obsessivo que seja. Em meio a uma variedade infindável de títulos e volumes disponíveis, me detive alguns minutos admirando um: “Sharpe's Waterloo”.

Tratava-se de uma edição da HarperCollins de 2010, classificada como “paperback”, do tipo que, por aqui, poderíamos definir simplesmente como “brochura”, se fosse possível – claro está – não considerarmos que depois que os Beatles cantaram “Paperback writer. Please, sir or madam, can you read my book?” o termo ganhou outros significados correntes. Sim, pois, após essa intervenção pontual da cultura pop, “paperback”, mais do que nunca, passou a ter a conotação geral de publicação de baixo custo, quiçá baixa qualidade, seja do insumo empregado na própria edição, seja relativa à aptidão e aos rudimentos literários do escritor. Seguramente, trata-se de avassaladora bobagem, pois todos os grandes escritores publicados nos Estados Unidos e na Europa possuem edições em “paperback”, o que, a toda evidência, diminui sensivelmente o custo final do produto e o grande beneficiado não é outro senão o leitor.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Condenado, de Bernard Cornwell

A Pérola Subestimada

“Gallows Thief” é o título original de mais esse excelente romance de Bernard Cornwell. Como se sabe, a versão publicada no Brasil pela Editora Record foi chamada de “O Condenado”. O livro é brilhante: as descrições são finas e detalhadas; a trama é surpreendente e divertida; as referências culturais são muitas e variadas; e as personagens marcantes. Tudo em sua composição parece obedecer a uma ordem bem planejada e minuciosa, como sói ocorrer com os romances históricos assinados por Cornwell.

É de se notar, entretanto, que o livro não foi recebido pelo mercado brasileiro com o entusiasmo que merecia. Talvez – mera especulação – apenas sintoma da tradução do título do livro o fazendo parecer um dos romances jurídicos do advogado norte-americano John Grisham. Isso poderia afastar os fãs de romances históricos, porém o nome de Bernard Cornwell, certamente, os traria de volta, ainda que o autor não contasse com uma legião de fiéis seguidores no Brasil. Talvez o sucesso de outros livros do autor, talvez a falta de uma campanha de marketing mais agressiva por parte dos editores brasileiros de Cornwell, resta saber. O fato é que “O Condenado”, entre os títulos publicados no Brasil, é um dos últimos lembrados quando se pensa no escritor inglês, o que, definitivamente, é uma pena. Em minha modesta perspectiva, o público em geral, de uma forma ou de outra, subestima este livro e com isso perde uma grande aventura de investigação policial, ambientada na Inglaterra dickensiana do início do Século XIX.

sábado, 18 de setembro de 2010

O Conde de Monte Cristo

Estou convencido de que alguns livros inspiram certa saudade antecipada antes mesmo que se leia a última página. À medida que o final se aproxima, por mais que se anseie descobrir o desfecho, toma corpo o lamento pela iminente despedida.

Este certamente é o caso de O Conde de Monte Cristo. Não é fácil vencer as quase mil e quatrocentas páginas dos dois volumes da edição definitiva da editora Jorge Zahar¹, que superou minhas expectativas pela qualidade e inclui belas ilustrações da época de lançamento original, em folhetim. Essa densidade fez com que o livro me acompanhasse por algumas semanas, mais de oito no total, me tornando íntimo das personagens e de suas histórias particulares.

Assim, cada vez que via diminuir o número de páginas faltantes, orientado por um cartão de visitas que utilizei à guisa de marcador, desejava que houvessem mais dois volumes adicionais aguardando no armário.

Naturalmente, trata-se de um desejo paradoxal em um mundo que considera prolixo qualquer texto que ultrapasse os 140 caracteres de uma twitada. Ademais, a rigor, o tal desejo continua sem fazer sentido quando se considera que a melhor parte do romance são os relatos da prisão de Dantès, mais especificamente do seu encontro com o Abade Faria até sua fuga. Poucas boas explicações, porém, advém de ilações tão simples assim.

É certo que a narrativa da fuga, do encontro com os corsários, do achado do tesouro e da vingança evidentemente contribuem para tornar obra ora comentada indispensável, mas nada se compara ao encontro com o velho clérigo italiano.


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Catarse

No começo aquilo parecia uma tortura. O tipo de sacrifício que as pessoas se impõem no decorrer da vida, pois têm certeza de que, passando por isso, atingirão um objetivo qualquer.

No total, o percurso se estendia pouco além de onze mil metros. Uma distância que um corredor relativamente bom cobre em aproximadamente 30 minutos. Ocorre que ele não era nenhum corredor profissional, longe disso. Quando começou, era um corredor afetado: contava cada passo, sentia cada pisada, abria a boca demais, abaixava a cabeça e se preocupava muito apenas com a pisada, tentando prevenir um possível trauma nas articulações do joelho e do tornozelo: primeiro o calcanhar, depois a planta do pé se amoldando ao chão até chegar à ponta dos dedos e oferecer um novo impulso e assim continuamente, um pé depois do outro. A falta da melhor técnica o fazia avançar muito pouco, malgrado grande desgaste. Sofreguidão ritmada e constante.

Sempre que partia se sentia um Fidípides e sabia que cairia morto ao final daquele sofrimento. Mas essa morte gloriosa não veio. Com o tempo o esforço foi se tornando natural. Pouco a pouco se familiarizava, se soltava e seu corpo respondia demonstrando adaptação. Como resultado passou a correr sem estar obcecado com a chegada, de sorte que já não era necessário dizer a si mesmo o tempo todo que não podia obedecer ao desejo de parar e se deitar no chão. Então, simplesmente corria, ocasionalmente e quase involuntariamente, controlava a intensidade dos movimentos para manter a média nas constantes saliências e reentrâncias do caminho.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O Nome da Rosa¹

Quando alguém se determina a ler O Nome da Rosa² também está decidindo adentrar na santíssima abadia que o bom Adso considerou piedoso não revelar o nome.

Todavia, apenas é dado sair desse imponente reduto beneditino, encravado nas montanhas da região setentrional da Itália, àquele que ali permanece por sete dias, orientado pelas horas canônicas, o divinum officium, fixadas na regra pelo próprio santo fundador da Ordem.

É bom que se diga que a expressão “viver sete dias na abadia” é utilizada pelo próprio autor no complemento indispensável “Pós-Escrito a O Nome da Rosa”, obra em que Umberto Eco sustenta que a premissa inafastável para se chegar ao sétimo dia é aceitar o ritmo da abadia.

Segundo ele, as cem primeiras páginas do livro revelam tal e tão didático tom que foram mantidas, ignorando sugestão em contrário do primeiro editor, para testar e penitenciar o incauto leitor. Penitenziagite! Sim é preciso pagar tal tributo para ultrapassar a estrada sinuosa e escarpada que leva à abadia. Do contrário, permanece-se abandonado nas encostas, do lado de fora das muralhas e ignorante acerca de uma obra sem paralelos.